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Poltergeist no Cabuçu

Chegou de mala, mas sem a cuia, do sertão de Bodocó. Trazia a mulher novinha e um menino de seis meses  no colo.

A seca o expulsou para São Paulo, ou melhor para o Cabuçu, onde virou caseiro. Era maio e o clima já estava meio invernal. A casinha no meio do mato parecia até aquelas de contos de fábula, cercada de floresta e escuridão.

Os primeiros dias, ou melhor, as primeiras noites transcorreram normalmente, sem novidades. Mas na quinta madrugada foi acordado por um barulho alto. Sentou na cama, apurou o ouvido e mesmo no mais completo escuro viu o medo nos olhos da mulher. Tornaram a deitar, o sono estava voltando quando o barulho se repete. Foi assim o resto da noite.

Uma semana se passou e era sempre igual: pac, pac, pac soando no telhado.  Toda manhã ele olhava em volta da casa e não achava nenhum rastro. Seriam os vizinhos querendo meter medo nele? Vasculhou o forro em busca de algum bicho fazendo ninho e nada.

Na noite seguinte: pac, pac, pec, pac. Ele perdeu a paciência. Se atracou com o facão e saiu como uma bala pra flagrar o engraçadinho. Nada. Silêncio total. Nem viva alma.

Cismado e amedrontado falou com a mulher:

- Arre, tô ficando cabreiro. Se não tivesse tão precisado pegaria as coisas e me mandava daqui.

Ela respondeu: eu também, pois creio que é alma penada, Deus nos livre!

Ciço tomou uma resolução: hoje eu não durmo! Sentou na única cadeira da casa, com o facão e a lanterna no colo. Ao primeiro pac, saiu de fininho, pé ante pé, chegando na frente da casa acendeu a lanterna e vasculhou a escuridão, deu a volta pra lá, pra cá e nada. Silêncio. Será que a Ana tem razão e é alma mesmo, pensou Ciço. Mas encontrou a coragem lá no fundo do coração e decidiu sentar num toco em frente à casa, de lanterna apagada, só na espreita.

Quinze minutos depois: pac, pac. Ele auscultou com cuidado, localizando o exato local do barulho. Acendeu a lanterna bem na hora que outro míssil estava a um metro do telhado. Mas o estranho é que ele vinha em linha reta, como se caísse do céu.

E caia! Iluminando a árvore sobre sua casa viu um bando de jacus descansando nos galhos. Eles passavam o dia inteiro se empanturrando de coquinho e a noite toda cagando os carocinhos.

Entrou em casa rindo e tranquilizou sua mulher que agarrada no terço fazia uma oração pra espantar os fantasmas.  Agora toda noite, antes de dormir ele espanta os jacus e dorme o sono dos justos.

Genocídio misterioso no Cabuçu

Poltergeist no Cabuçu

Genocídio misterioso no Cabuçu

Como boa parte dos homens que chegam à maturidade eu tinha um sonho: comprar um sítio. Mas só de pensar nas horas intermináveis cozinhando num carro na volta pra casa numa Fernão Dias entupida nos domingos à tarde me dava arrepios.

Certa noite regada à cachaça foi esparramado em cima de uma mesa de bilhar um mapa topográfico por meu parceiro de jogo que disse:

- Quero comprar este sítio, é um paraíso. Fica só a 15 minutos do centro. Vamos ser sócios?

Fomos lá no dia seguinte e sem pensar muito fechamos negócio. Constrói aqui, arruma ali, meses depois, sentados na varanda veio à inspiração de montarmos um galinheiro. Mas não um simples amontado de tela velha, mas sim um autêntico hotel cinco estrelas para as penosas. Mãos à obra. Recorri aos meus dotes de carpinteiro e em um mês ergui um suntuoso espaço todo em madeira, com telhado e piso, porta e poleiros, ninhos para as meninas botarem os tão desejados ovos caipiras. Eram duas dúzias de hóspedes divididos entre 23 meninas e um galo orgulhoso.

 

Durante as primeiras semanas nos fartamos. Ovos fritos, cozidos, omeletes, caixinhas de papelão cheias distribuídas aos amigos e parentes. Era o nosso orgulho: ovos caipiras e uma bela ninhada de pintinhos a quinze minutos do centro!

Tudo ia bem até que algumas semanas depois toda ninhada de vinte e tantos pintinhos se resumia a dois. Eles desapareciam sem deixar vestígios. Os ovos iam rareando, o que restava pela manhã eram algumas cascas quebradas.

 

Num segundo momento começaram a aparecer galinhas destroçadas, algumas ocas por dentro. Cenas de horror no grande spa galináceo do Cabuçu.  Quem seria o autor desta barbárie? Poderia ser obra de vizinhos invejosos? Haveria algum maníaco sanguinário nas redondezas ou seria trabalho de um culto satânico baseado no sacrifício de aves?

Um a um foram desaparecendo os “hóspedes”, nada de ovos, nada de pintinhos. Intrigado com o mistério resolvi colocar uma câmera pra flagrar o meliante em ação. Ao assistir a gravação de dois dias e duas noites descobri que o crime não era obra de um único indivíduo, mas sim uma orgia de sangue organizada por vários assassinos. Um detalhe que esqueci de contar é que o sítio fica encravado numa área de mata densa, próximo à represa, floresta primitiva, fechada. E era de lá que vinha nosso pesadelo.

O primeiro sacana era um teiu flagrado se fartando de ovos, depois vieram gatos selvagens de olhos revirados estripando galinhas. E a orgia noturna continuava com gambás, cobras e outros meliantes fazendo fila para se banquetearem  às nossas custas. Durante o dia o perigo vinha dos céus: era a vez dos gaviões darem seus rasantes sequestrando pintinhos indefesos.

Derrotados, nos restou saborear o último galo e sua companheira num domingo preguiçoso. Hoje o Grande Hotel se encontra em ruínas e os omeletes e ovos fritos que acompanham as refeições vem prosaicamente embalados em caixinhas de papelão, direto do supermercado.

A natureza venceu novamente!

Por: Aparecido Dalnulla