Genocídio misterioso no Cabuçu

September 23, 2017

 

Como boa parte dos homens que chegam à maturidade eu tinha um sonho: comprar um sítio. Mas só de pensar nas horas intermináveis cozinhando num carro na volta pra casa numa Fernão Dias entupida nos domingos à tarde me dava arrepios.

Certa noite regada à cachaça foi esparramado em cima de uma mesa de bilhar um mapa topográfico por meu parceiro de jogo que disse:

- Quero comprar este sítio, é um paraíso. Fica só a 15 minutos do centro. Vamos ser sócios?

Fomos lá no dia seguinte e sem pensar muito fechamos negócio. Constrói aqui, arruma ali, meses depois, sentados na varanda veio à inspiração de montarmos um galinheiro. Mas não um simples amontado de tela velha, mas sim um autêntico hotel cinco estrelas para as penosas. Mãos à obra. Recorri aos meus dotes de carpinteiro e em um mês ergui um suntuoso espaço todo em madeira, com telhado e piso, porta e poleiros, ninhos para as meninas botarem os tão desejados ovos caipiras. Eram duas dúzias de hóspedes divididos entre 23 meninas e um galo orgulhoso.

 

Durante as primeiras semanas nos fartamos. Ovos fritos, cozidos, omeletes, caixinhas de papelão cheias distribuídas aos amigos e parentes. Era o nosso orgulho: ovos caipiras e uma bela ninhada de pintinhos a quinze minutos do centro!

Tudo ia bem até que algumas semanas depois toda ninhada de vinte e tantos pintinhos se resumia a dois. Eles desapareciam sem deixar vestígios. Os ovos iam rareando, o que restava pela manhã eram algumas cascas quebradas.

 

Num segundo momento começaram a aparecer galinhas destroçadas, algumas ocas por dentro. Cenas de horror no grande spa galináceo do Cabuçu.  Quem seria o autor desta barbárie? Poderia ser obra de vizinhos invejosos? Haveria algum maníaco sanguinário nas redondezas ou seria trabalho de um culto satânico baseado no sacrifício de aves?

Um a um foram desaparecendo os “hóspedes”, nada de ovos, nada de pintinhos. Intrigado com o mistério resolvi colocar uma câmera pra flagrar o meliante em ação. Ao assistir a gravação de dois dias e duas noites descobri que o crime não era obra de um único indivíduo, mas sim uma orgia de sangue organizada por vários assassinos. Um detalhe que esqueci de contar é que o sítio fica encravado numa área de mata densa, próximo à represa, floresta primitiva, fechada. E era de lá que vinha nosso pesadelo.

O primeiro sacana era um teiu flagrado se fartando de ovos, depois vieram gatos selvagens de olhos revirados estripando galinhas. E a orgia noturna continuava com gambás, cobras e outros meliantes fazendo fila para se banquetearem  às nossas custas. Durante o dia o perigo vinha dos céus: era a vez dos gaviões darem seus rasantes sequestrando pintinhos indefesos.

Derrotados, nos restou saborear o último galo e sua companheira num domingo preguiçoso. Hoje o Grande Hotel se encontra em ruínas e os omeletes e ovos fritos que acompanham as refeições vem prosaicamente embalados em caixinhas de papelão, direto do supermercado.

A natureza venceu novamente!

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